Aquela sombra era por demais dessemelhante doutras, pois em seu âmago comportava um frívolo tilintar de luz, espécie de cintilo aberrante que distorcia as leis da compreensão, coexistindo às trevas em que mesclava seu bizarro brilho. a sombra do boneco de neve era a monstruosidade perfeita, o paroxismo insondável, a própria fantasia tecida nas cortinas da realidade. O corpo sombra bailava na brancura gélida em acordo com a posição da luz que o iluminasse. O sol sempre lhe ditava uma bela coreografia, sustentado ali, naquele imenso céu como uma estrela sem calor, já que o inverno era rigoroso; por vezes, vinha a lua ser o maestro daquela canção fosforescente a conduzir a performance da sombra ao redor do boneco. Ocorria de, algumas vezes, sumir-se por entre as trevas dos dias e noites nubleis, porém bastava um simples e micróbico prisma de luz para que ressurgisse em todo seu esplendor, a horrenda maravilha.
Crianças, poetas e amantes provindos de todos os lugares, surgiam, para admirar e extasiarem-se com a bela anomalia, que apenas confundia aos especialistas e estudiosos, versados em pesquisar os dilemas e em teorizar a vida, sem no entanto descobrir se a origem estava no boneco ou em sua própria sombra, onde a chama ardia, tal um órgão pulsante. Porém chegava-se a primavera, e n’um amanhecer digno de si, ia-se a neve derretendo, e toda a extensão branca dava vazão ao ante - cor que pronunciava o retorno de belos e floridos dias. Nisso ouviu-se o choro de uma criança, e esta chorava em uma altura prodigiosa, n’um desespero que se podia crer ter dado de frente com o próprio cão, seu choro por fim alcançou outras crianças, unindo-se todas em um coro de estridente desarmonia, que se desdobrou em coisa pior ao juntarem-se às crianças alguns adultos que tinham ido socorrê-las... Era a admirável anomalia que desfazia-se junto com o boneco, que derretia, deformando-se, como uma doce canção em suas últimas notas. Todos em volta assistiam, convalescidos, o triste espetáculo, em qual, ao fim, ainda assombraram-se com um som que aludia a um último suspiro, quando então extinguiu-se por completo a luz bruxuleante ao centro da sombra, que deixou de existir ao passo que o boneco escoava sobre a terra fresca, vertido em água, por entre um compasso de soluços entrelaçados ao cantar dos pássaros que retornavam do sul, trazendo em sua bagagem a estação das flores.
Primavera em auge. crianças sorrindo e brincando, amantes trocando pretensas juras eternas entre os campos floridos e poetas denunciando as belezas da estação às suas tristes almas. Ninguém mais se recordava do boneco de neve, sua sombra e a tácita luz em seu interior a iluminar a imaginação de todos no rigor do inverno; mas ela, por sua vez, a tudo observava de um ângulo privilegiado da noite, de onde, quase sempre escorriam lágrimas prateadas por sobre a face da trezdensidão celeste, e, a cada lágrima que caía, podia-se perceber alguém fazendo um pedido por prosperidade. O pequenino e bizarro brilho tornara-se uma radiante estrela, mas continuava triste ao encarar quem lhe mirava através das noites, suspirando mediante a cada pedido, pois sabia que dependia do próprio homen, e não de forças alheias, o único rumo da felicidade humana.
(No inverno quente e úmido de 1993)
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